SONA apresenta A PESSOA BOB
A ATENÇÃO E O QUE NÃO EXIGE REAÇÃO
Multi-instrumentista, compositor e artista sonoro, Ayrton Pessoa Bob transita entre o piano, o acordeão, os sintetizadores e os controladores eletrônicos com a mesma naturalidade com que move seus processos criativos entre a música autoral, a trilha sonora, a performance e a instalação. Ao longo de mais de uma década de produção solo, além de integrante do notório grupo cearense Argonautas, Bob foi sedimentando uma linguagem que se reconhece pelo interesse nas bordas, ocupando-se do som e do silêncio, entre a eletrônica e o acústico, entre a composição rigorosa e o gesto improvisado.
"Costumo dizer que comecei a tocar roubando um teclado da minha irmã", conta ele, “um Casiotone bem pequenininho”. Foi através dele que descobriu a música como brincadeira e sua predileção pelo aprendizado solitário. O prazer de entender as coisas por conta própria marcaria para sempre sua relação com a música, e criaria uma tensão produtiva com outra dimensão igualmente central da sua trajetória: o trabalho coletivo.
No colégio, e já com um teclado maior, Bob formou alguns grupos. Um deles foi o Argonautas, que surgiu ainda na escola e, décadas depois, persiste como uma das referências da música autoral cearense. O grupo funcionou como um espaço de trocas que não tinha a rigidez de um grupo de estudo formal, mas tinha toda a sua intensidade. Um dos parceiros dos Argonautas abriu as portas de casa, e da música, de uma maneira literal. "A mãe dele era professora de música. Só de entrar na casa deles você já respirava aquilo... tinha livro de música espalhado por todo canto". Mais tarde, Bob chegaria a estudar composição com Liduíno Pitombeira, notório compositor brasileiro, anos depois de suas primeiras aulas de piano.
A virada mais decisiva da trajetória de Bob não veio diretamente da música. Ainda jovem, ele se aproximou de outras áreas artísticas e percebeu que havia algo que a música sozinha não estava lhe oferecendo. O encontro com o teatro veio preencher essa lacuna. O teatro ofereceu uma outra forma de escuta, algo que ele “ainda não conhecia, como escutar desse jeito”.
Um dos grupos que cita como decisivo nesse processo foi o Bagaceira, grupo de teatro referência em Fortaleza e no Brasil. Lá, ele descobriu que podia se aventurar sonoramente de formas que as bandas não permitiam, principalmente ao dialogar com a encenação do palco, e se sentindo participante em uma “conversa” que ainda não havia experienciado antes desse encontro. Até hoje, quando compõe ou cria qualquer obra, Bob afirma partir da visualização de uma cena, imaginando imagens e movimentos mesmo quando esses elementos não fazem parte da obra final. Essa prática se tornou um hábito profundamente internalizado, que se tornou quase automático ao longo do tempo.
São mais de trinta espetáculos assinados ao longo dos anos, para grupos e artistas da cena cearense contemporânea, de Ivanov (Teatro Máquina, 2011) à Maçã Mordida (Teatro Espiral, 2022), passando por nomes como o Pavilhão da Magnólia, Coletivo Soul e No Barraco da Constância Tem. Para Bob, compor trilha para teatro é uma experiência radicalmente distinta de compor para o cinema, onde o som chega na pós-produção, sobre imagens já montadas. Ele explica que no teatro ao vivo, “o performer afeta o som, e o som afeta o performer, uma coisa meio alucinante”, em uma transformação transistorizada, que emite, mas também coleta. Essa ideia de circuito, onde o som não é emissão unilateral, mas troca, contágio, retroalimentação, atravessa toda a sua poética.
A distinção que Bob faz entre som e música é central para entender seu trabalho, não em termos de hierarquia, mas de escopo. A música, tal como costuma ser praticada na canção popular, parte de convenções que delimitam o que entra e o que fica de fora. O som, num sentido mais amplo (como matéria, fenômeno, evento), escapa dessas delimitações. É nesse território mais vasto que Bob se sente mais à vontade para criar.
Bob nos narra um episódio que vivenciou com a precisão de quem reconhece nele um momento fundador. Certa vez, saiu para gravar o som de uma serraria. "O cara adorou que eu fui lá só para gravar. Ligou todas as máquinas, começou a cortar madeira. E eu gravando, gravando... Fiquei encantado com aquele som”. O que poderia parecer um gesto exótico, um músico saindo para captar ruídos industriais, era, para Bob, a consecução lógica de uma intuição que vinha ganhando forma. O som do cotidiano, aquele que normalmente se relega ao fundo, que não ameaça nem convoca, carrega uma riqueza que a música convencional tende a desperdiçar.
Essa atenção ao “que não exige reação imediata” é, talvez, a definição mais precisa do que Bob faz, e do modo como ouve. Sua formação filosófica não é um detalhe biográfico sem consequências: ela atravessa sua maneira de pensar o processo criativo, de nomear projetos, de construir narrativas para o próprio trabalho. O álbum Horizonte Aparente (2019), por exemplo, parece evocar um conceito da astrofísica, o horizonte de eventos. É o limite além do qual nenhuma informação pode escapar de um buraco negro. Bob transforma o conceito em metáfora de uma prática que se interessa pelos limiares do perceptível. O nome diz muito sobre o artista, como alguém que se interessa menos pelo destino do que pelo tráfego nas fronteiras.
Horizonte Aparente é o segundo álbum solo de Bob. Desenvolvido no Laboratório de Música da Escola Porto Iracema das Artes, com orientação do pianista e produtor paulistano Benjamin Taubkin, o projeto caminha entre experimentação e apresentações para tomar forma. O resultado é um disco de onze faixas que agrega sonoridades minimalistas, eletrônica experimental e glitch, com uma camada brasileira que o próprio Bob identifica como "camuflada no meio de tudo".
O projeto se estrutura como o encontro de três artistas: Bob nas programações eletrônicas, acordeão e composições, Jônatas Gaudêncio no clarinete, e Raí Santorini no desenho de luz. O diálogo entre som e luz opera literalmente, criando um circuito onde as transformações visuais e sonoras se alimentam mutuamente. A música como algo inseparável do espaço que ocupa.
No acordeão, instrumento com história profundamente enraizada na música nordestina, Bob encontra uma matéria sonora que ressignifica ao colocá-la em atrito com frequências eletrônicas e com a respiração errante do clarinete de Jônatas. O acordeão aqui escapa do lugar de folclore, ou mera citação regional, ao instituir-se como corpo sonoro, com suas rugosidades e seus graves, posto em diálogo com paisagens que evocam ficção científica.
Nos últimos anos, Bob vive um processo que descreve como a redescoberta de algo que havia subestimado. "Eu subestimei a canção durante um tempo. Agora estou nessa onda de novo: pegar o violão, como um bardo, e cantar algo direto. A palavra é um negócio forte para caramba, dispensar essa força não é muito inteligente". Essa aproximação com a canção não é isenta de tensão.
Bob se descreve como uma pessoa "naturalmente tímida", e cantar em público com a própria voz, num trabalho solo, revelou-se uma exposição de outro nível. "Quando fui cantar um trabalho próprio, solo, pela primeira vez, estava com os nervos à flor da pele. Parecia que nunca tinha cantado em público. Era só por causa disso: faltavam as outras vozes". A ausência de amparo sonoro, das outras vozes, do volume, da sonoridade coletiva que distribui a exposição, é sentida fisicamente. É estranho que alguém que trabalha há tantos anos com o som como matéria sensível precise renegociar com sua própria voz. Mas talvez seja exatamente por saber demais o que está em jogo.
Em estúdio com a SONA, Bob gravou duas faixas. Em Cardume, o músico opera quase como um arquiteto da repetição, utilizando loops de sintetizador e teclado que se desdobram de forma minimalista. A música apoia-se em arpejos precisos e na sobreposição progressiva de texturas que guiam o ouvinte por uma linha ascendente contínua. É um exercício de paciência e imersão onde o som ganha um caráter expansivo, mimetizando a lógica do horizonte de eventos que o artista investiga: um ambiente sonoro que vai se tornando gradativamente mais denso e magnético à medida que avança, sem pressa de chegar, concentrado puramente no tráfego de sua própria progressão.
Já Respiro aprofunda a assinatura híbrida de Bob ao colocar em atrito o calor acústico do acordeão com a crudeza eletrônica dos synths e teclados. O grande trunfo da faixa reside no uso da voz, que surge aqui despida de qualquer função semântica ou literária, operando estritamente como mais uma camada textural e orgânica no arranjo. À medida que o ritmo crescente se expande, o acordeão e a voz se fundem às frequências sintéticas, criando uma massa sonora contagiante e retroalimentada. É uma peça que traduz perfeitamente a poética do artista, criando um som que não pede reação, mas que engole o espaço e transforma a audição em atmosfera viva.
Diante dessas composições, fica evidente que o percurso de Ayrton Pessoa Bob se renova sem abandonar suas obsessões fundamentais. Seja costurando loops milimétricos no sintetizador ou diluindo a voz e o acordeão em texturas contínuas, seu trabalho atual funciona como uma síntese viva de sua trajetória, propondo uma música que nasce da imaginação de cenas invisíveis e que convida a uma escuta de imersão. Ao operar no limiar entre o rigor técnico e a entrega sensorial, Bob nos lembra de que o som, mesmo quando produzido para pequenas audiências, possui uma força expansiva monumental. No fim, sua arte também não exige de nós uma reação imediata. Exige apenas o desarmamento necessário para habitar, junto com ele, as ricas e misteriosas bordas do silêncio.