SONA apresenta IZMA XAVIER

Izma Xavier

A ARTE DE DESAPRENDER

Henrique Gomes


Atuando entre Fortaleza, Camocim e Sobral, a instrumentista e compositora Izma Xavier questionou as convenções do baixo para construir uma trajetória fundamentada na experimentação sonora.

Sua relação com a música começou em Camocim, entre ruas movimentadas por bares e a loja de vinil de sua avó que, acompanhando as transformações do tempo, virou loja de fitas, videogames e lan house. O contrabaixo entrou em sua vida quase por acaso, quando “sobrou” em um grupo de violões na escola. Contudo, o que começou como improviso de infância tornou-se sua verdadeira “espada e escudo”, a base firme de onde parte toda a sua investigação.

Sua pesquisa transita com fluidez pela música instrumental, a paisagem sonora, o improviso, o sample, a experimentação e a trilha sonora. Integrante da banda sobralense Procurando Kalu e baixista no trabalho da cantora e flautista Clarisse Aires, dentre outros projetos, Izma tece sua sonoridade na encruzilhada contínua entre o virtuosismo do instrumento e a subversão estética. Izma já colaborou com diversos nomes da cena cearense, como Mateus Fazeno Rock, Briar e Mona Gadelha, evidenciando sua versatilidade no palco e no estúdio.

Nos últimos anos, essa multiplicidade desaguou em um reencontro profundo com sua própria essência de instrumentista. Após mergulhar nas águas da arte sonora e da captação de campo, Izma retorna ao contrabaixo sob uma nova perspectiva. Em seu território atual, o som é um laboratório constante, em que o corpo atua como a verdadeira origem da música e o instrumento funciona como condutor, ou uma "torneira" para o que transborda de sua vivência, como define a própria artista.

Izma Xavier

Parte desse impulso exploratório vem de uma busca por identidade nas cordas. Ao tentar a guitarra, Izma esbarrou primeiro nos clichês do blues e no receio de soar caricata. Guiada por padrões convencionais e pela “pentatônica do Slash”, a virada de chave ocorreu quando seus parceiros de banda lhe apresentaram a essência da guitarra brasileira. A imersão na sonoridade de Mestre Vieira e na guitarra do forró nordestino trouxe o foco para a harmonia e para as raízes caribenhas e latinas, preenchendo uma lacuna que a música internacional ainda não alcançava.

Contudo, a dedicação a essa pesquisa, vivida intensamente com sua antiga banda Nova Geração de Bêbados, tornou-se, eventualmente, uma armadilha. Com o fim do grupo e a chegada da pandemia, Izma percebeu que aquilo que inicialmente a libertara acabou por aprisioná-la criativamente. "Eu me senti meio limitada. Uma coisa que veio para me libertar me aprisionou depois", reflete sobre o período em que o formato engessou e seu ímpeto criativo pedia por novas rupturas.

A quebra desse paradigma estético veio por meio do diálogo coletivo, força motriz constante na vida da artista. Foi Rodrigo Brasil, amigo e guitarrista da Procurando Kalu, quem lhe apresentou as infinitas possibilidades da música experimental e da arte sonora. Acostumada à paleta colorida e harmônica da guitarrada, Izma deparou-se com o atonalismo, o ruído como composição e imagens sonoras de "cores mais misturadas e menos geométricas". O experimento soou como um “banquete de novos sabores”. A partir daí, a artista abraçou o desconhecido, testando gravações em fita cassete, mesas com pendrives e resgatando a fascinação pelos sintetizadores e pela música eletrônica, interesse despertado ainda na graduação em Música na UFC Sobral, sob orientação do professor Guilhermo Tinoco.

Esse trânsito entre a memória afetiva popular e a desconstrução radical encontra ressonância no trabalho de artistas brasileiras contemporâneas como a baterista e pesquisadora Mariá Portugal ou a cantora e percussionista Alessandra Leão, nomes que, assim como Izma, utilizam a improvisação e a arte sonora para friccionar as matrizes da música brasileira.

Nessa fase, o ouvido de Izma voltou-se radicalmente para o ambiente. Inspirada pela compreensão de que a feitura musical é indissociável do momento e do espaço físico, ela passou a gravar no quintal da Toca da Matraca, casa de residência, criação e formação artística independente onde morou e atuou em Sobral (CE). O som orgânico dos pássaros, o vento nas folhas e até as marteladas rítmicas de trabalhadores locais fundiram-se ao som de seu violão. O projeto resultante, Sonhos Opacos, consolidou a percepção de que o registro sujo, imperfeito e atrelado ao meio externo era exatamente o que a obra exigia, recusando o asseio artificial dos estúdios.

Izma Xavier

A experimentação, para Izma, nunca é um processo solitário. Em sua trajetória, marcada por intensos encontros musicais e afetivos, a força que impulsiona sua desconstrução reside na coletividade. O convívio diário na Toca da Matraca, a colaboração em trilhas sonoras e os processos imersivos no teatro ensinaram que o fazer ao vivo e em grupo molda diretamente suas intenções musicais. Assistir à presença performática de Felipe Castro em cena, ouvir a poesia afiada da escritora Fran Nascimento e observar o processo de composição de Zeca Kalu serviram para humanizar uma técnica que, sem essas companhias, lhe soava mecânica.

Essa intersecção transversal entre teatro, performance e som culminou em uma epifania durante uma residência na Escola Porto Iracema das Artes, orientada pela diretora cênica e pesquisadora Loreta Dialla. Após dias de preparação estritamente corporal, em que tocar os instrumentos era proibido, os artistas foram finalmente liberados para sonorizar. O resultado foi uma performance transcendental e ininterrupta de 50 minutos, guiada inteiramente pela intuição, som e movimento. Foi ali que Izma cristalizou a ideia de que “não basta tocar com os dedos”: "O meu instrumento é o corpo, o primeiro instrumento é o corpo. O contrabaixo é a torneira por onde vai, mas a origem é meu corpo".

Essa investigação sobre a presença física do som alinha a escuta de Izma ao pensamento de pioneiras da vanguarda e da escuta profunda, como Pauline Oliveros, ou à fase mais conceitual de Esperanza Spalding, artistas para quem o corpo e o ambiente ao redor não são meros suportes, mas a própria matéria-prima do acontecimento musical.

Hoje, Izma Xavier abraça a experimentação não apenas como um método de escuta, mas como uma ferramenta de criação sempre à mão. Munida de seus pedais e loopers, fundamentais para criar fissuras na sua composição, ela se vê como uma "cientista maluca", tendo o instrumento de corda e seus anexos como seu grande laboratório. Crente de que a estagnação é perigosa para a criatividade, Izma busca o imprevisível como tentativa de "quebrar o coração de pedra", em constante processo de ressensibilização.

Izma Xavier

O improviso ocupa posto central. A artista ressignifica a própria ideia de ensaio, compreendendo que atividades cotidianas, como ir comprar um pão ou chorar ouvindo música, também são ensaios fundamentais para o palco, pois alimentam o repertório existencial do corpo criador. Um corpo que, no seu fazer artístico, toca por inteiro.

Gravadas especialmente para a SONA, as duas faixas escolhidas por Izma ilustram com precisão as dualidades desse momento. "Menta" explora a crueza de forma fluida e delicada. A faixa homenageia sua avó Menta, que, embora não fosse a dona da loja de vinil, também nutria uma forte relação com a música e guardava, dentre outros, um disco de trilha sonora de ficção científica que, ao mesmo tempo que assustava a artista na infância, aguçava sua curiosidade sonora. A avó, assim como seu avô materno, faleceu no primeiro semestre de 2025. Construída como um diálogo íntimo no qual existe apenas Izma e seu contrabaixo, a música funciona como uma câmara de eco para o luto. O instrumento traduz, ao mesmo tempo, o peso da ausência e a ressonância esperançosa da memória afetiva.

"Colibri", por outro lado, é uma demonstração cristalina de sua habilidade em arquitetar narrativas instrumentais ricas, abarcando as cores de suas múltiplas fases. É uma faixa que convoca as harmonias do passado, mas reorganizadas sob a escuta cirúrgica de uma artista sonora madura.

Juntas, as duas obras revelam uma criadora que precisou desaprender as regras de seu próprio ofício para renovar ciclicamente sua voz. Ao transformar seu corpo em origem e sua música em laboratório, Izma Xavier atesta que a técnica mais refinada de um artista é a coragem contínua de deixar-se atravessar pelo mundo.

Henrique Gomes

Henrique Gomes é editor da SONA Magazine, pesquisador e entusiasta de práticas experimentais em som e arte.