SONA apresenta RODRIGO BRASIL
O DESARMAMENTO DA ESCUTA
Há um gesto de insubordinação silenciosa na trajetória do compositor e instrumentista cearense Rodrigo Brasil. Em uma cultura musical muitas vezes dominada pela idolatria da técnica, pela pirotecnia dos solos e pelo fetiche performático da guitarra elétrica, decidir desligar o ouvido das referências do próprio instrumento soa quase como uma heresia. Contudo, foi precisamente esse movimento de renúncia consciente que permitiu ao artista, radicado em Sobral, recalibrar sua percepção do som e inaugurar uma pesquisa provocativa e transversal junto à cena independente cearense.
"Por um tempo, parei de ouvir guitarristas para conseguir finalmente ouvir a música. Parece que quando você se liberta do virtuosismo do seu instrumento, a cabeça aprende a criar de outro jeito", revela Rodrigo. A afirmação, longe de ser um mero aforismo sobre desapego, sintetiza uma virada epistemológica em seu processo de criação, a de desarmar a própria escuta.
Neste movimento de esvaziamento, o instrumento deixou de ser um fim em si mesmo para se converter em um catalisador plástico. A partir dessa fresta, o som passou a emergir de lugares até então negligenciados pelo rigor acadêmico ou pela tradição popular. Esse som vinha do atrito das paisagens sonoras, da intuição, da ocupação física do espaço e, fundamentalmente, do corpo e da sensibilidade afetiva do criador.
Dessa perspectiva, Rodrigo Brasil vem construindo um ecossistema poético em que criar é, antes de tudo, uma prática de estar presente. Em sua entrevista à SONA, o artista reflete sobre como o desapego do viés puramente técnico abriu margem para uma escuta ampliada, recorrendo a uma abordagem em que o corpo é a própria matriz sensível de onde brotam as intenções de sua composição.
Para compreender a densidade do pensamento sonoro de Rodrigo Brasil, é preciso situar sua produção na cartografia afetiva e territorial em que foi gestada. Sobral, cidade polo do norte cearense, é um território de intensas fricções culturais. Cruzada pelo Rio Acaraú, a cidade combina o calor causticante e a mística do sertão com uma efervescência acadêmica e artística singular. Foi nesse ambiente de encontros imprevisíveis que emergiu a Toca da Matraca, espaço de residência, formação e criação artística independente que se tornou o epicentro de uma revolução estética silenciosa na região.
Foi na Toca da Matraca que Rodrigo ajuntou suas inquietações às de outros artistas da sua geração, como Izma Xavier e Zeca Kalu, gestando projetos que desafiariam a lógica da produção cultural do interior do Ceará. Entre eles, destaca-se a banda Procurando Kalu, fundada em 2013 e da qual Rodrigo é um dos criadores, guitarristas e diretores estéticos. Definindo sua sonoridade inicial sob o rótulo provocativo de Tropical Indie e expandindo-se posteriormente para o art-rock e a música experimental, a Procurando Kalu construiu um trabalho em que a canção popular abraça o teatro, a poesia, o ruído e a performance.
Na Procurando Kalu, a guitarra de Rodrigo não busca conduzir o arranjo de forma hierárquica. Pelo contrário, ao ser articulada em diálogo direto com sintetizadores, baixos distorcidos, percussões orgânicas e a presença performática de Zeca Kalu e Felipe Castro, a guitarra de Rodrigo funciona como uma camada textural, um elemento de fricção cromática. A banda tornou-se uma espécie de laboratório vivo, onde a música tradicional nordestina, como o baião e a guitarrada, encontra a desconstrução atonal e o ruído contemporâneo.
Paralelamente à banda, o ecossistema da Toca da Matraca possibilitou que Rodrigo desenvolvesse uma atuação profundamente comunitária e contagiosa. A criação era entendida como um processo de contaminação mútua. Artistas que orbitavam o mesmo espaço encontravam em Rodrigo um interlocutor generoso, capaz de instigar a dúvida pedagógica e o desejo pelo desconhecido e pela reinvenção do próprio instrumento.
A história da guitarra elétrica no século XX é, em grande medida, a história do virtuosismo. Do blues elétrico de Chicago ao heavy metal, passando pela psicodelia dos anos 1960 e o math rock contemporâneo, o instrumento foi investido de uma aura quase mítica, associada à velocidade, ao domínio físico sobre a escala e à afirmação da individualidade do instrumentista. Esse modelo, embora tenha produzido momentos fundamentais da história da música popular, tende a criar armadilhas estéticas rígidas. O guitarrista recai frequentemente em vícios de memória muscular, uma mão busca automaticamente os desenhos de escalas aprendidos na juventude, enquanto a outra repete padrões rítmicos consolidados.
Quando Rodrigo Brasil declara ter parado de ouvir outros guitarristas para conseguir "ouvir a música", ele descreve uma operação de desintoxicação poética. O objetivo não era rejeitar a história do instrumento, mas desestabilizar a guitarra de suas amarras fetichistas.
Dessa necessidade de radicalizar a investigação sobre o instrumento nasceu o projeto Contra Espelho, um experimento/pesquisa focado nas possibilidades da guitarra desconstruída, no uso de fitas cassete degradadas, em pedais de efeito levados ao limite do feedback e na pintura experimental. Em Contra Espelho, a guitarra se transforma em um condutor investigativo de sonoridades conhecidas, tornadas desconhecidas através do seu desarranjo e timbres ocos. Assim, Rodrigo Brasil insere-se em uma linhagem de criadores que recusam o instrumento como uma ferramenta estática e o reconfiguram como um campo de forças em constante mutação.
Ao desapegar-se do viés puramente técnico, a cabeça do criador passa a operar por arquitetura e escultura sonora, e não por sequenciamento de notas. A pergunta deixa de ser "Qual acorde vem agora?" para se tornar "Qual a densidade dessa textura no espaço?" ou "Como esse som afeta a temperatura do ambiente?".
Se a técnica pura é abandonada como norteador principal, o que ocupa o centro do processo criativo de Rodrigo Brasil? A resposta apresentada pelo artista em sua entrevista à SONA é inequívoca: o corpo e a sensibilidade afetiva.
Historicamente, a tradição ocidental cartesiana tentou separar a mente (lugar da razão e da estrutura musical) do corpo (mero executor biomecânico). Na contramão dessa divisão, Rodrigo defende que a composição é um ato integralmente corporificado. Assim, o som brota do estado de presença física do artista, do seu ritmo respiratório, do cansaço dos músculos, da postura e das memórias afetivas impregnadas na pele.
Essa dimensão física e sensível ganha contornos ainda mais evidentes na parceria de Rodrigo com o performer e pesquisador Felipe Castro no projeto Corpoco. Desenvolvida como uma proposição cênico-sonora, a performance investiga os não-lugares urbanos e as dinâmicas de passagem e permanência na cidade. Em Corpoco, o som produzido pela guitarra de Rodrigo e o movimento do corpo de Felipe funcionam como uma única matéria tracionada em tempo real. A guitarra responde aos deslocamentos do performer no espaço, enquanto o performer reage às variações de densidade e ruído emitidas pelos amplificadores. O som torna-se palpável, uma presença física que colide com a arquitetura urbana e altera a percepção do público presente.
Ao colocar a sensibilidade afetiva no centro de sua prática, Rodrigo transforma o ato de fazer música em um exercício de vulnerabilidade. As composições do artista são moldadas pelas relações humanas que o cercam, pelos lutos acumulados, pelos amores vivenciados, pelas paisagens do sertão e pela convivência diária com seus parceiros de criação. A música torna-se um diário de ressonâncias emocionais, em que cada ruído retém o rastro de uma vivência real.
A ampliação da escuta de Rodrigo Brasil também é fruto direto de sua formação acadêmica e de sua atuação multidisciplinar. Em seus estudos na graduação de Artes Visuais pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), o artista explorou no campo da música os conceitos de espacialidade, croma, textura, contraste e composição plástica típicos da pintura e da escultura.
Nas artes visuais, o espaço em branco de uma tela é uma presença latente. Da mesma forma, em suas composições sonoras, o silêncio e o ruído de fundo são o espaço negativo sobre o qual as texturas se projetam. A vivência com as artes plásticas permitiu a Rodrigo pensar a música em termos cromaticamente mais complexos. Em vez de trabalhar apenas com a paleta geométrica dos acordes tradicionais, ele passou a manipular "tintas sonoras" compostas por frequências graves, interferências eletromagnéticas e estalidos analógicos.
Essa sensibilidade plástica encontrou um terreno extremamente fértil no cinema e no audiovisual. Assinando o som direto e a trilha sonora original de diversos curtas-metragens de destaque, como Límite I (2024), vencedor dos prêmios de Melhor Curta Experimental no Festival Internacional de Cinema Respira (RS) e Melhor Som no Festival Cine Meru (CE), e Límite II (2025), assim como o projeto Atro-Cidade: Desvios Sonoros Visuais (2022), dirigidos por Thamires Coimbra, artista Sobralense com qual Rodrigo mantém uma rica parceria desde 2020.
Na pesquisa de Rodrigo, o som opera como um personagem autônomo e invisível, capaz de contradizer a imagem, criar camadas de memória fantasmagórica ou tensionar a narrativa. Para ele, essa prática alimentou diretamente o seu trabalho como guitarrista e compositor. A escuta hiperatenta exigida pelo cinema ensinou-o a trazer para a sua música a mesma riqueza de detalhes e a mesma atenção aos microrruídos que habitam a vida cotidiana.
Uma das características mais marcantes do impacto de Rodrigo Brasil na cena cultural do Ceará é o seu papel como agente provocador e catalisador do trabalho de outros artistas. O conhecimento e a pesquisa desenvolvidos por Rodrigo não se encerram em um baú individual de segredos técnicos, mas circulam de forma generosa através do diálogo e do convívio cotidiano.
Um exemplo emblemático dessa contaminação poética ocorreu com a instrumentista e compositora Izma Xavier. Integrante da Procurando Kalu e parceira de longa data de Rodrigo, Izma possuía uma formação fortemente ancorada na riqueza harmônica do contrabaixo e nas dinâmicas da guitarrada nordestina. Contudo, em determinado momento de sua carreira, Izma sentiu-se aprisionada pelas próprias fórmulas que havia aprendido a dominar.
Foi Rodrigo Brasil quem funcionou como o vetor de abertura para esse novo mundo. Ao apresentar a Izma as possibilidades da música experimental, da arte sonora, do atonalismo e do uso do ruído como matéria compositiva, Rodrigo ofereceu à parceira uma nova paleta cromática, "de cores mais misturadas e menos geométricas", como descreveria Izma. Esse encontro transformou a pesquisa individual da baixista, culminando em trabalhos como o projeto Sonhos Opacos, e também fortaleceu a dinâmica coletiva de toda a cena em que estavam inseridos.
Esse movimento pedagógico e horizontal revela uma postura ética diante da arte. Em um mercado cultural frequentemente pautado pela competição e pelo individualismo, a prática de Rodrigo aposta na construção de redes de afeto e criação compartilhada. Ao desafiar seus parceiros e parceiras a abandonarem o conforto do viés técnico, Rodrigo ajuda a consolidar uma prática artística em que a dúvida, o experimento e a coragem de errar são celebrados como valores fundamentais.
Sua atuação em colaborações com artistas de diferentes linguagens, do rock performático de Buhr à cena efervescente de Mateus Fazeno Rock, passando pelas experimentações eletrônicas de Clau Aniz e a arte conceitual de Felipe Castro, demonstra a versatilidade de um criador que sabe transitar entre o palco principal e os bastidores da pesquisa sonora.
As duas composições inéditas gravadas por Rodrigo Brasil especialmente para esta edição da SONA funcionam como um compêndio sonoro de suas reflexões teóricas, apresentando o artista em seu estado mais íntimo e investigativo.
Em "A pedra de se ver", a marcação do tempo surge de um loop contínuo de cowbell, sobre o qual a guitarra constrói uma sonoridade ao mesmo tempo seca, pesada e delicada. A linha instrumental alterna entre uma ambiência grave, com certo tom apocalíptico, e agudos bem posicionados que atravessam a textura. Sem apego a letras ou palavras, a voz se manifesta em gritos que funcionam como chamados, explorando a própria ressonância do corpo e a textura vocal como instrumento primário.
"Quarto escuro" é conduzida por um loop percussivo de cowbell tocado com baquetas, gerando um pulso hipnótico que evoca matrizes rítmicas cearenses, como o coco, o reisado e o maracatu. A voz ganha um tom mais ruidoso e animalesco, com ar de agouro, enquanto a guitarra tateia por microrritmos melódicos. O instrumento parece inicialmente desorientado dentro do arranjo, mas vai encontrando seu caminho à medida que se abraça a esse caos combinado.
As gravações registradas para a SONA mostram a experimentação em sua forma mais física. Entre a pulsação percussiva, a voz desnudada e a guitarra que busca sua lógica no próprio erro, Rodrigo Brasil reafirma a prática artística como um espaço fundamentalmente livre.